
Este assunto raramente alguém gosta de escrever, pois sabe dos riscos decorrentes de uma regulagem mal feita. Mas prefiro escrever o conceito básico no intuito de evitar que a falta de conhecimento possa resultar em regulagens mal feitas.
Como deixar a asa mais macia e "redonda" nas térmicas?
Objetivo: Fazer com que a asa "encaixe" facilmente na térmica e não fique caindo em faca para dentro das termais, reduzindo os movimentos de correção que o piloto precisa fazer (high siding).
Asas de ponta redonda (Ex.: Wills Wing e Moyes) possuem regulagem do copinho na ponta do Leading-Edge. Estes copinhos são responsáveis por deixar a tala flexível de fibra com a ponta mais pro alto ou mais pra baixo. Se a ponta estiver mais alta (como as pontas de asa de urubus) a asa ficará mais encaixada nas termais e mais macia, porém perderá um pouco de performance em alta velocidade. Se a ponta estiver mais baixa, a asa ficará caindo em faca nas térmicas. Uma ponta muito alta pode fazer com que a asa fique querendo sair das térmicas (cuspida da térmica) e fique até difícil de entrar na térmica lateralmente.
Deixar as talas que estão mais próximas da quilha (as 4 ou 5 maiores talas da asa) com pouca tensão deixará o comando da asa mais fácil e leve. O recomendado é que ao encaixar e tensioná-la, a pressão seja capaz de provocar um levantamento na curvatura da tala no bordo de ataque de uns 5 milímetros.
Outra coisa que influencia muito no comando da asa é a altura do casulo em relação à asa. Se você colocar seu casulo muito alto, o centro de gravidade ficará muito próximo da asa e você terá que fazer muita força pra comandar a asa. O ideal é tentar o mais baixo possível sem que comprometa seu movimento de comando. Isso influencia tanto que 2 cm mais baixo você achará que está voando outra asa (mais macia, claro). Tente regular para que na picada seu peito/barriga praticamente fique raspando no speedbar.
Como melhorar a performance nas tiradas (em alta velocidade)?
Objetivo: Fazer com que a asa tenha uma razão de planeio (L/D) melhor em alta velocidade e que consiga penetrar bem em situações de vento contra.
Na maioria das asas modernas, quando a marcha da asa é cassada, os recuperadores maiores (próximos da quilha) automaticamente são rebaixados e os (menores) são os que passam a atuar em alta velocidade. Quanto mais baixos os recuperadores de ponta, mais insegura e perigosa a asa ficará, sujeita a uma capotagem. Se a 70 Km/h sua asa possui muita pressão de barra, você pode experimentar retirar 1 volta do seu recuperador de mergulho de ponta e fazer um vôo de teste. Nunca reduza mais de uma volta entre um vôo e outro. Tente deixar sua asa regulada de forma que entre 70 e 75km/h (de marcha cassada) ela tenha um pouco de pressão de barra. Nunca deixe pressão de barra negativa!
O peso do piloto também influencia na performance e L/D da asa. Leia a especificação de peso que o fabricante informa para sua asa. Geralmente eles colocam a faixa (peso mínimo hook-in e máximo). Se deseja mais performance, divida a faixa de peso que o fabricante recomenda em 3 blocos e faça com que "seu peso+casulo+lastro" fique no terceiro bloco, mais próximo do limite máximo de peso aceito para a asa. Quanto mais pesado (sem exceder o limite máximo), mais a asa renderá nas tiradas (Alan, não esquecerei da covardia de Brasilia 2008 jamais)!
Sua posição em vôo e regulagem do casulo podem influenciar. Nas tiradas, tente manter o casulo alinhado com o horizonte ou um pouquinho com a cabeça pra baixo. Braços juntos ao corpo e poucos movimentos de correção, exceto os de velocidade p/ tentar voar na velocidade desejada em relação à massa de ar que está passando (acelerar nas descententes e reduzir velocidade nas ascendentes).
Em alta velocidade minha vela fica fazendo barulho e panejando nas pontas. Como tirar isso?
Objetivo: Elimitar os panejamentos que ocorrem de um os ambos os lados, pricipalmente nos 2 últimos gomos da ponta da asa.
Asas de ponta redonda (Ex.: Wills Wing e Moyes) possuem uma regulagem na alavanca que tensiona a tala flexível de fibra e também uma regulagem de tensão do bordo (esticador da vela que a prende no leading-edge).
Tensionar um pouco a vela pode reduzir este efeito. Se for mexer, solte o pino que trava a vela no leading-edge e marque com uma caneta a posição atual. Mexa de forma a tensionar apenas 3 milímetros e faça um test-fly. Faça sempre igual dos 2 lados.
Quanto à regulagem que existe no copinho de alumínio que existe no final da alavanca que tensiona a tala de fibra, não é muito intuitivo encontrar esta regulagem. Existe um parafuso que prende esta alavanca na vela. Solte o parafuso e remova a alavanca de dentro da vela com cuidado, pois existe uma pecinha concêntrica e arruelas que podem cair no chão. Você perceberá que esta pecinha não é simétrica e pode ser encaixada de 2 formas. Na Wills Wing, o que existe na verdade são 3 furos e você pode escolher qual dos furos será usado. Cada um deles dará mais ou menos tensão na tala de fibra. Isto evita que você precise serrar a tala de fibra (ou colocar uma maior) como era feito antigamente. Faça testes (sempre fazendo igual dos 2 lados) e veja qual posição reduziu mais o panejamento da vela em alta velocidade.
Como faço para minha asa ser macia nas térmicas, ter performance e ser segura?
Lamento informar, mas quase todas as regulagens possuem correlação entre si.
Mais performance => menos segurança
Mais macia => pior rendimento
Defina seu estilo de vôo e regule a asa de forma que te atenda da melhor forma, ou regule a asa conforme seu objetivo no vôo. Em vôos de distância e de longa duração, a maioria dos pilotos preferem asa macia do que performance. Em competições e voando na bombação, aceita-se uma asa mais dura, mas andando bem em alta velocidade.
Fica aqui a dica de como nossas Wills Wing T2 estão reguladas:
Copinho da tala de fibra: 1 ponto a mais na regulagem, colocando a ponta mais alta, ou seja, mais macia do que a regulgem de fábrica que geralmente vem no zero. Priorizamos o vôo de XC.
Recuperadores de alta velocidade (menores): relativamente baixos, ao ponto de manter pressão de barra a 75 km/h.
Recuperadores de baixa velocidade (maiores): acompanhando a relação existente entre os recuperadores de alta velocidade, conforme o que o manual informa. Medir também com a marcha toda cassada (vide dica abaixo sobre o manual da T2).
Furo do CG na quilha que o hang-loop prende: isso é muito pessoal e varia um pouco de ano e modelo. Mais pra frente a asa fica mais fácil de comandar na térmica.
Peso do piloto: no "2/3" da faixa de peso recomendada pelo fabricante e usando lastro natural (cerveja, claro!)
Dica para regulagem da Wills Wing T2:

No manual, a medida padrão dos recuperadores de fora a linha deve passar 2 cm (na T2-144) ou 1 cm (na T2 154) abaixo do topo do tubo da quilha e usando a tala #3 (a tala de fibra é a #1) como referência pra cordinha.
Se rebaixar um pouco os recuperadores de ponta, tente acompanhar a relação dos recuperadores de dentro (de marcha cassada).
Bons vôos e fiquem a vontade para comentar, complementar e corrigir qualquer informação citada.